Para quem exerce comunicação institucional em Angola, estes últimos dias tiveram um desconforto muito particular. Não o desconforto de ficar sem rede — esse foi de toda a gente. Foi o de reconhecer, por detrás de cada notícia, de cada comentário e de cada meme, uma sala onde estão colegas nossos a trabalhar sob uma pressão que nenhum de nós desejaria para si.
Recordo o essencial. Na madrugada de terça-feira, 28 de Julho, pelas 02h20, um ataque cibernético à infra-estrutura tecnológica da Unitel interrompeu os serviços de voz, dados móveis e Internet em todo o território nacional. Ficaram afectados os 20,8 milhões de clientes da operadora, com repercussões nos terminais de pagamento, nas caixas automáticas e na actividade quotidiana de empresas e cidadãos. Aconteceu a poucos dias da estreia da empresa na Bolsa de Dívida e Valores de Angola. Uma conjugação de circunstâncias que ninguém planeia e para a qual nenhum manual prepara verdadeiramente. SapoOku Saka
Nestas horas, a tentação do especialista é quase irresistível. Dizer o que faria. Apontar o comunicado que faltou, o minuto que se perdeu, a palavra que não devia ter sido usada. Debitamos diagnósticos com a segurança confortável de quem não tem de assinar nada ao fim do dia. Já cedi a essa tentação noutras ocasiões e conheço-lhe o sabor.
Mas quem alguma vez esteve dentro de uma sala de crise sabe aquilo que a bancada não vê. Sabe que a informação técnica muda de hora a hora e que anunciar um prazo que não se cumpre custa mais caro do que não anunciar nenhum. Sabe que há um processo criminal em curso e que cada frase passa pelo crivo do jurídico. Sabe que existem accionistas, um regulador, um Estado, uma imprensa e vinte milhões de clientes — e que a mensagem que serve um raramente serve os outros. Sabe, sobretudo, que a decisão mais difícil em gestão de crise não é o que dizer: é o que ainda não se pode dizer.
Por isso, a minha palavra para os colegas da Unitel é apenas esta: solidariedade profissional. Que a tempestade passe depressa, que a rede volte por inteiro e que a equipa saia deste episódio com a saúde e a reputação intactas. É a única coisa útil que, de fora, se pode oferecer.
Há uma segunda coisa, no entanto, que se pode desejar — e que desejo com sinceridade.
Que esta crise venha a ser escrita. Não em tom de julgamento, mas em tom pedagógico, como se escrevem os estudos de caso que formam gerações inteiras de profissionais. Com dados, com cronologia, com as decisões e as razões que as sustentaram. Que se examine como se ocupa o espaço narrativo quando a informação técnica ainda não existe. Como se escolhe o vocabulário oficial quando ele descreve, inevitavelmente, uma realidade mais suave do que aquela que o cliente está a viver. Como se comunica em simultâneo com públicos que querem coisas diferentes. E porque é que o país acabou por baptizar o incidente com uma palavra emprestada do sector eléctrico.
Angola tem poucos estudos de caso próprios. Formamo-nos quase sempre com material importado, sobre mercados que não são o nosso e sobre ecossistemas mediáticos que funcionam de outra maneira. Esta crise tem tudo para se tornar um dos nossos — dimensão, complexidade, múltiplos públicos e uma dimensão bolsista inédita no país.
Não há homenagem maior a uma equipa de crise do que o seu trabalho ser estudado. Quando for tempo, espero lê-lo.




